Tarefas da inteligência maranhense Por John Kennedy Ferreira

TAREFAS da INTELIGÊNCIA MARANHENSE
Reflexões sobre as eleições de Reitor da UFMA e a Situação social marenhense

O bolsonarismo traduziu a sociedade brasileira e ao mundo, um Brasil profundo, selvagem, desumano. O Bolsonarismo é uma autobiografia do Brasil: genocídio de indígenas; perseguição às mulheres e gays; matança de negros e o estrangulamento dos direitos dos trabalhadores e de suas representações.
Frente a esse cenário de destruição do Estado Nação, surgiu uma FRENTE AMPLA encabeçada pelo gigante Social-Liberal Lula e o conservador, Geraldo Alckimin.
A situação das Universidades e da UFMA
O conhecimento, a universidade, as tecnologias e a ciência foram atacadas com furor sanguinário por bolsonaristas, o corte de quase 70% de verbas é um dado inegável dessa sanha política.
As universidades que tiveram reitores bolsonaristas empossados conheceram a presença de militares em reuniões de departamento, a espia constante de reuniões estudantis e de funcionários. Ao longo disso, verbas eram cortadas, prioridade aludidas a EAD, pesquisas e bolsas negadas, professores, técnicos e alunos perseguidos, propostas de voltas as aulas presenciais em plena pandemia!
Nada disso aconteceu na UFMA!!!!
o Reitor Natalino Salgado é um pensador conservador e autoritário, mas obstante isso, teve um comportamento de tímida indisposição com as políticas bolsonaristas. Em 2018, foi um dos raros políticos conservadores que apoiou Fernando Haddad mesmo quando era claro, a todos, que a derrota seria iminente. Repetiu o feito em 2022, apoiando Lula e Alckimin. Igualmente manteve apoio ao Colégio de Reitores no seguimento as suas diretrizes quanto a educação e a pandemia, não rompeu com o Colégio de Reitores, quando os bolsonaristas criaram uma outra associação.
A postura autoritária na reforma do Estatuto adequando a PEC 32 (não votada), que pode, simplesmente pode, ser revogado por um novo reitor ou por processo civil, é notadamente parte da sua política conservadora. Mas até agora, a BNCC não foi discutida como deveria e tampouco a reforma do ensino médio, revogadas pelo Governo. Mas ninguém vai acusar Camilo Santana de ser fascista ou bolsonarista.
Os professores das universidades, onde tem reitores bolsonaristas, terão que lutar muito para superar e mandar de volta para as casernas os militares, as deleções, as perdas de autonomia, as perseguições, revogar exonerações. Neste caso, uma Frente Ampla é justificável e necessária.
Na UFMA, a liberdade de crítica, a liberdade de opinião, de produção intelectual, de reunião e associação não foram em nenhum momento tolhidas. A negação a ciência, como ex: apoio a cloroquina, cultos evangélicos nos campi e outros absurdos, não ganhou espaço nem tiveram apoio institucional.
Portanto, acreditamos que o debate sobre a reitoria deve ter outro viés. Perguntamos, qual é a concepção de Universidade, qual é a concepção de ensino, qual é a dotação orçamentária e a sua alocação, qual é a posição sobre as licenciaturas, bacharelado, pós graduação, funcionamento dos laboratórios e das bibliotecas, segurança na UFMA, desenvolvimento da ciência e tecnologia, transporte, moradia estudantil, futuro e mercado futuro para os formandos, posição sobre a reforma do Ensino Médio e BNCC, funcionamento dos campi, salários, terceirizados e limpeza pública, concursos públicos, refeitórios, desenvolvimento do Estado e da sociedade maranhense?
Tendencias diversas hegemonizadas por alegorias psicológicas, somaram-se numa “repetição” da Frente Ampla Lulista, juntaram numa mesma sala setores ligados ao PSTU, PSOL, setores do PT, estudantes ligados ao DCE indo até a uma ex pró-reitora, da gestão natalinista por doze anos. Tudo isso para combater o natalinismo que segundo a visão, é continuidade do fascismo bolsonarista, na UFMA.
Para realizar tamanha ginástica política, tem que apagar a realidade e os fatos, apagar o Colégio de Reitores, as iniciativas de combate a pandemia, a participação no Consórcio Nordeste, tem que apagar a existência de liberdade de opinião, apagar os votos em Haddad (2018) e Lula (2022). Tem que apagar a realidade e esquecer a própria inépcia frente ao Real.
Penso, logo insisto: os problemas da universidade são de outra monta e exigem um programa político, claro e prático. Exige um debate sobre o futuro do Maranhão e do Brasil que encante as pessoas e os setores da UFMA, que trate de desenvolvimento econômico e social, que sinalize como combater a desigualdade a pobreza e a fome. Que aponte outro futuro que não seja mais do mesmo.
Desta realidade observamos dois assuntos que ficam subsumidos dentro da “ideologia de ocasião”: 1) a Universidade em seu lato sensu é o espaço de reprodução das políticas das camadas e classes dominantes, há no seu seio, setores que representam e criam as políticas para o funcionamento do mercado, das empresas, do aproveitamento social desenvolvimento científico e tecnológico para o Capital, além de dotar a sociedade capitalista, de mão de obra qualificada; 2) no seu cerne, a universidade não está apartada da Luta de Classes, mas expressa através de seus principais atores relações ambíguas, que são melhor traduzidas em Gramsci no seu debate sobre a situação Meridional: nesta, a função dos intelectuais seria de duas montas, unir-se aos grupos dominantes (da terra, dos bancos, Indústria, comercio exportador e importador etc), ou expressar-se através dos interesses intermediários, unindo-se em certas ocasiões a setores contrários ao Capitalismo.
Compreendemos Natalino, como expressão do primeiro grupo. Ele e seu grupo de poder, representam a relação com os grandes capitais maranhenses, nacionais e internacionais, tanto na relação de sua ascensão empresarial como no escopo de suas alianças políticas.
Sua base material, manifesta através da candidatura de Fernando Carvalho, conta com o apoio do Governador Brandão (PSB), do Vice Governador, Camarão (PT) do senador Dino (PSB) e atrai apoio engajados entre os partidários do PSDB, PSB, PT, PCdoB e de outros setores da sociedade civil.
expressa uma política focada no desenvolvimento do mercado exportador de comodities com a construção de portos e estradas para o escoamento da produção agrária, gás, petróleo e de minérios, gerando em longo de 10 anos (2020 a 2030) um faturamento de 59 bilhões de dólares e um montante de 4 mil empregos (FIEMA)
Por seu turno, os membros da suposta Frente Ampla, se encontram numa saia justa, além de não apresentarem uma relação clara com a sociedade e a universidade, limitam-se a uma crítica sem conteúdo tingida de subjetivismo e ressentimento.
Não raro reproduzem no seu affair os mesmos traços culturais que criticam no natalinismo, o autoritarismo. E. ademais, são na maioria do mesmo círculo cultural: frequentam os mesmos lugares, não raro, tem o mesmo sobrenome etc. O fato de serem formados por setores médios, os coloca sempre nesta ambiguidade ou seguem a oligarquia ou os críticos do capitalismo.
Como exemplo, salientamos que nos estertores da ditadura militar e no ascenso do movimento operário e camponês, nos fins da década de no 1970 e durante a década de 1980, esse grupo de intelectuais ligou-se as lutas camponesas e cumpriu um verdadeiro papel inovador na sociedade maranhense, apoiando lutas por melhorias salariais urbanas, lutas da juventude e dos estudantes, atividades culturais, associativismo sindical e a luta pela reforma agrária capitaneada pelo Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural (CENTRU). Com a debacle e a crise do movimento socialista e trabalhista iniciada em 1990, este setor perdeu o eixo político, não acompanhou o aggiornamento realizado pelo PT e o movimento sindical, ligando-se a uma trajetória esquerdista e moralista deslocada da realidade concreta.
Até agora, foram incapazes de apresentar um projeto alternativo, de união ou formular qualquer política que justifique a existência real de uma suposta “frente Ampla”.
A realidade que devemos discutir
Recentes prospecções constataram uma bacia de 46,3 bilhões de metros cúbicos de gás no vale do Parnaíba e também algo em torno de 30 bilhões de litros de petróleo na costa maranhense (margem equatorial que vai do litoral do RN ao AP). Isso se soma a 8 milhões de toneladas de ouro, 246 milhões de toneladas de gipsita, além das outras milhares de toneladas de bauxita, calcário, cobre, diamante, opala, urânio e manganês além do mercado em crescimento de energia solar, eólica e de hidrogênio verde. Essa riqueza imensa pode significar uma nova página no desenvolvimento do Maranhão, pode significar um ciclo industrial estruturado e dinâmico.
Porem, o Maranhão é atualmente o estado mais pobre do Brasil, Das 50 cidades mais pobres do Brasil, 40 estão aqui, 50% da força de trabalho está desempregada, 59% dos trabalhadores estão na informalidade, 65% da força de trabalho ganha até R$ 400 por mês, 56% da população de São Luís recebe até R$ 165; 20% vivem com menos de R$ 85,00 por mês e 3% dos maranhenses não têm renda alguma. O Maranhão é também o estado que mais produz mão de obra escravizada. E, 60% da população recebe o Auxílio Brasil e a tem como a única fonte de renda. O Maranhão é o estado onde 57,9% estão entre a miséria e a fome e 17,7% em extrema pobreza. O núcleo central dessa pobreza é o modelo econômico agroexportador O avanço das atividades latifundiárias (agronegócio) com uma velocidade de 5,5% ao ano, o que significa a perda de terra das comunidades camponesas, ribeirinhas, quilombolas e de indígenas. Bastando ver que, desde 1985 até o censo agrícola de 2017, o número de estabelecimentos agrícolas caiu de 531.413 para 219.765. No mesmo processo podemos observar o aumento da violência no campo e o crescimento dos estabelecimentos não familiares detêm – hoje – cerca de 70% das terras aráveis do Maranhão e o tamanho das propriedades também passa por mudanças.
A mecanização das atividades agroexportadoras vem gerando corte dos postos de trabalho. De 2012 a 2021, de 719 mil trabalhadores rurais empregados, reduziu-se para cerca de 200 mil, ou seja, menos de um terço. No censo de 2017, o agronegócio produziu um lucro de R$ 5,3 bilhões sem construir postos de trabalho diretos. O agronegócio e o mercado de commodities geram riqueza e concentração de renda numa pequena parcela da população e perdas de direitos sociais e pobreza no geral. (dados do IBGE, 2022).
Por fim
Um debate sobre a reitoria deve estar distante da “fulanização” e centrar-se no concreto, nos grupos de poder em movimento, nos interesses políticos para além da aparência. Uma instituição como a UFMA, pode apresentar pesquisas e estudos importantes para a dinamização da sociedade maranhense, para a construção de uma reforma agrária ampla, para a modernização da agricultura familiar, para melhorias das vias de escoamento, para uma reindustrialização do estado, para otimização da suas riquezas naturais e a preservação dos povos originários e do meio ambiente e para modernização do seu aparelho administrativo.
Compreendemos assim: o caminho deve ser outro, buscar discutir os temas, aprofundá-los em nível acadêmicos e democratizar o espaço de debate (com estudantes, técnicos e professores), visando construir um projeto (programa) real de universidade e que sirva de referencia a sociedade.

Publicado por sebocronicaflor

Escritora Professora Graduanda de Ciências Sociais - UFMA

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