Escrita social como resistência, luta e o fazer cultural

Por Ana Victória Costa da Silva

Os sujeitos antes de terem seu primeiro contato com a Língua Portuguesa, com a grafia e os fonemas, seu contato é visual, a leitura que fazemos é a de mundo, um letramento da realidade só que sem a sistematização das letras correspondendo às regras.
A escrita como resistência parte desse pressuposto, o que sinto, o que vejo e o meu desejo de escrever sobre algo e ser ouvido por palavras não ditas mas lidas causando espanto, curiosidade, emoções a quem estiver recendo o recado lido.
Comecei pelas emoções após um final de ciclo amoroso com crônicas a fim de suprir aquilo que não conseguia expressar, foi a melhor ideia e não no sentido de lucrar mas perceber que se eu fiz, escrevi e me fez bem, outro pode tentar também.
Iniciei os estudos em 2019 no curso de Ciências Sociais e muito do que eu ouvia e comecei a refletir ou debater, me fizeram perceber que ou você vive em uma bolha que a sua situação econômica constrói ou você cria uma mesma sem o poder aquisitivo que te falta.
Então, eu havia criado uma bolha dentro do meu existir na sociedade e vivendo nela por conta dos preconceitos entre aspas formados por uma criação e influência de uma sociedade capitalista e patriarcal que dentro do meu país também teve influência pois ela não se inciou dessa forma, foi um processo histórico e depois econômico de tentar modernizar, começa pelos padrões europeus e perpetua com o sonho americano e se espalha pelo conhecer novas culturas em diversos segmentos e setores do conviver social.
Mas que exemplos eu posso ter para desenvolver uma escrita de resistência ou crítica?
Vejamos Gilberto Freyre que trouxe ensaios sobre o Brasil e sua formação e a relação dos senhores, escravos e povos indígenas, mas principalmente as consequências da casa grande nos dias de hoje, a qual carregamos fisicamente e difunde no psicossocial.
Que tal a história de meninos correndo as ladeiras do Vitória na Bahia, meninos que no final de sua história como Pedro Bala de Capitães de Areia, obra do maravilhoso Jorge Amado que almejava lutar pelos pobres meninos e a sociedade marginal esquecida pela justiça e com fome de direitos.
Mas há quem goste das coisas fúteis e melancolia, que tal madame Bovary de Gustave Flaubert, moça do campo com sonhos burgueses, comete adultério e tenta se matar, hoje seria nós e as relações com empréstimos e créditos, se houver crédito. Dou esses três exemplos pois quero que vejam que não é a história a transmitir uma mensagem mas o escritor por trás dela.
Mas como resistir?
Carolina Maria de Jesus, é um exemplo mesmo presa e acusada de injustamente, por ter roubado um padre, ela e sua mãe e pasmem acusada de feitiçaria porque confundiram seu dicionário com um livro de São Cipriano. Mas foram as situações pela sua cor, a favelada que descreveu o descaso com os marginalizados principalmente como descreve que a “Favela é o quarto de despejo de uma cidade”, e quem são jogados ali? Ela responde que os pobres.
Gramsci, tem algo a dizer sobre a relação da cultura e da política e como são vistas essas propostas, iniciei dando exemplos e nesses exemplos há tempos e sociedades diferentes mas todas com problemas sociais e diferenças de classe e isso se dá desde a publicação de um livro até seu conteúdo uma ligação com a sociedade burguesa e política estatal. No entanto, esses autores ousaram nas críticas e em mostrar a situação do proletariado porque a cultura seja na escrita, na dança ou em outro fazer artístico ela tenta quebrar a hegemonia nos conceitos tradicionais e de uma hegemonia da classe dominante.
O que essas narrativas mudam e como podem ser utilizadas? Na escola e nas universidades para reconte, como recorte para estudo das ciências sociais, posso construir novas narrativas com outras perspectivas também para apresentar uma manifestação cultural ou uma ideia, como estudo de caso judicialmente, quantas escolas e professores de história não fizeram o julgamento de Getúlio Vargas? Ou fazer os apontamentos característicos dos personagens e agentes da situação, desvendá-los como a série Criminal Minds.
Como luta? Posso criar boletins, meios para divulgar minha proposta como interver nas situações sociais e abrir caminhos para companheiros de luta ou apenas para reflexão.
Tudo que você escrever, fizer dentro de qualquer âmbito haverá alguém refletindo sobre seu ponto de vista ali colocado em um papel ou em ação e será espelho para reflexão de outro sujeito. Uma escrita social precisa ser clara e compreensível a todos, quebrar a hegemonia e as barreias que nos dividem em classes e ser disponível o acesso à cultura da leitura e todos os fazeres artísticos pois se o Estado é um aparelho que só pertence a classe dominante se torna inviável o meu fazer cultural enquanto escritora pois eu preciso publicar e há um custo, preciso ler, preciso de papel e revisões e por isso muitos do meio cultural procuram alternativas ou vivem à espera de editais para concluírem seus projetos.
A cultura, a escrita,não deixa de ser política, somos sujeitos políticos,contribuindo e desenvolvendo regras nos diversos núcleos e escrever,é uma forma de resistir.

Publicado por sebocronicaflor

Escritora Professora Graduanda de Ciências Sociais - UFMA

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